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Homens que Odeiam Mulheres

Misoginia

Hoje vou me divertir um pouco falando de misoginia, o fenômeno dos homens que odeiam ou tem medo das mulheres. E também de gente que não compreende a ideia de empatia, nem sabe ler dados científicos, e curiosamente também odeiam ou têm medo de cientistas.

Machismo no Trabalho

Recentemente o Carlos Cardoso postou no blog Contraditorium um texto chamado 5 idéias insanas que a militância deveria rejeitar. O post fala sobre como a postura extremada de alguns militantes pró igualdade de gênero acaba atrapalhando mais do que ajudando a causa. O texto em si tem seus méritos, mas cita exemplos obscuros como se eles representassem uma parcela grande da militância e atribui a eles muito mais importância do que a realidade permite observar.

Interessante de verdade são os comentários feitos pelos leitores. Como seria de esperar, uma avalanche de misoginia e agressividade tomou conta completamente e dominou a tônica das reações.

Uma pequena brecha foi suficiente para que muita gente se sentisse legitimada para proferir os maiores absurdos, afinal, “mulheres jogam com as ferramentas que tem, estejam estas entre as orelhas ou entre as pernas. Não se trata de misoginia, apenas o reconhecimento que elas possuem mais recursos que nós e elas sabem usá-los.” afirma o comentarista Peixinho* (embora sejam apelidos usados em site, resolvi mudar todos os nomes para preservar o anonimato deles). O mesmo que pouco antes de postar uma imagem fazendo um trocadilho com a bandeira de cartões de crédito mastercard e o órgão sexual feminino, um tal de “Xerec@rd”, arremata: “Só acreditarei no matriarcado no dia que uma empoderada quiser pagar meus boletos para mandar na minha vida. Detalhe: sem usar este cartão, que seria exposição à lascívia masculina.”

Tomei a liberdade de responder. Citei um trecho da fala de Peixinho: “Não se trata de misoginia, apenas o reconhecimento que elas possuem mais recursos que nós e elas sabem usá-los.” E complementei, entrando no modo irônico: “Curioso que o mundo seja liderado por homens, e mulheres ganhem menos até hoje para exercer as mesmas funções no mercado de trabalho. Deve ser coisa da mídia progressista esquerdista que inventa milhares de mortes e estupros de mulheres só pra fazer os tontos ficarem com “peninha” e deixar as mulheres mandarem de verdade, por trás dos panos.”

Não tive resposta dele a esta minha intervenção, mas nem por isso a minha fala saiu barato. Logo outro comentarista tomou as dores da causa dos que acham que as mulheres são opressoras e os homens são pobres vítimas. Lobinho* virou meu debatedor, e afirma:

Primeiro, liderança ostensiva é muito mais problemática do que a liderança nas sombras.

O ex-presidente Clinton não tinha vergonha alguma de dizer que sua esposa funcionava como se fosse uma segunda presidente da América. Obama mesmo dizia que ele sempre ouvia os conselhos da Michelle antes de tomar uma decisão importante.

Imagina só, quantas pessoas podem dizer que detêm o poder de um país inteiro nas mãos sem sequer terem sido formalmente votadas para isso? (Não vale citar o Michel Temer, ele foi eleito como vice-presidente e assumiu legalmente com a saída da oficial no cargo.)

E mesmo fora do campo do ano-de-eleição, mulheres têm um puta poder de lobby. Você já viu algum governante supostamente machista misógino eliminar a lei maria da penha? Pelo contrário, o ColostoMicto e seus bolsokids se orgulham de ter deixado a lei ainda mais dura, “homem que bate em mulher não merece refresco”. Em que planeta você já viu um “grupo oprimido” ter tamanho poder?

Lobinho

Parece piada, mas infelizmente é sério. Tem gente que pensa isso mesmo. Mais ainda, acham-se justificados no seu repúdio ao feminino com um argumento tão tosco. A ideia central é: Se um homem ouve a esposa e respeita sua opinião, então ela é o verdadeiro poder. Uma liderança nas sombras.

Bill Clinton, ex-presidente americano é mencionado como exemplo disso, junto com a esposa Hillary. O comentarista obviamente esqueceu que Clinton passou por um processo de Impeachment por “supostamente” ter tido relações extra-conjugais com Mônica Lewinsky, então estagiária na Casa Branca.

O imenso e arbitrário poder que Hillary Clinton tinha sobre o marido e o país seria derivado essencialmente de sua vagin@. Levando-se em conta mesmo “submetido a tamanho poder”, Clinton não foi nem sequer fiel ao casamento, Hillary seria mesmo capaz de ditar os rumos do país?

Bill Clinton e Mônica Lewinsky – A toda poderosa Hillary não aparece na foto. Devia estar mandando no mundo.

O comentarista menciona na parte final: “Você já viu algum governante supostamente machista misógino eliminar a lei maria da penha?” E menciona que se um homem ocupando o cargo da presidência não tolera homem batendo em mulher, isso deve significar que esse “grupo oprimido” (aspas dele) deve ter muito poder.

Duas coisas ele precisa compreender.

Em primeiro lugar, vivemos numa democracia. Propor o fim da Lei nº 11.340, conhecida popularmente como “Lei Maria da Penha”, assim como propor o fim do Estatuto da criança e do adolescente ou a volta da escravidão não depende da vontade individual de um governante. Ele depende de ter apoio na opinião pública e no Congresso Nacional, e de uma análise da legalidade da proposição. Independente da opinião do mandatário em relação a esses temas, seria impossível mudar essas leis.

A segunda questão justifica a primeira: mesmo um misógino machista pode ser contra a agressão física cometida contra mulheres. O fato de alguém pensar nas mulheres como seres inferiores não quer dizer que ele deseje necessariamente que elas sejam agredidas. Um homem que acredite na tese de que as mulheres são criaturas frágeis e indefesas, pode pensar que é dever dos “homens bons” defendê-las de “homens maus”, sem considerar que elas próprias possam ser sujeito de direito.

Da mesma forma, um sujeito que seja racista pode perfeitamente abominar a volta da escravidão, por considerar moralmente abominável sua existência. Foi inclusive essa a razão do fim da escravidão no Brasil, não algum poder oculto dos negros sendo exercido das sombras do Império Brasileiro, apesar de o movimento abolicionista ter contado com alguns negros importantes.

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Peixinho voltou à carga:

Na minha área, Segurança Pública, mulheres ganham a mesma coisa e se expõem bem menos.
Delitos contra as mulheres existem desde sempre, e são delitos individuais, eu não sou responsável pelos estupros de Gengis Khan mas caso você se sinta responsável, faça a sua autocastração e seja feliz.

Fui obrigado a retrucar:

“Que bom que na segurança pública as mulheres ganham a mesma coisa. Pena que a sua experiência pessoal com mulheres ou na profissão não sejam representativas de como o mundo funciona.

Tomar uma vivência específica que claramente não serve como parâmetro para explicitar como funciona a relação entre homens e mulheres no mundo é exatamente a mesma coisa que essas ativistas doidas fazem.

Eu estou tentando deixar claro apenas que a natureza do discurso é a mesma. Veja só, qual é a diferença entre:

Alfabetização tem promovido a subjugação das mulheres pelos homens através de quase toda a história do Ocidente.” e “eu não sou responsável pelos estupros de Gengis Khan mas caso você se sinta responsável, faça a sua autocastração e seja feliz.”?

Uma frase afirma que existe uma agenda masculina para subjugar as mulheres e a outra que existe uma agenda feminina para subjugar os homens. A fonte de dados empíricos para ambas afirmações é: Times New Roman, 12″

Lobinho não deixa por menos:

OK, gênio. Me explica uma coisa:

Se mulheres recebem menos para fazer rigorosamente a mesma coisa que um homem faz “e com um salto alto” (para parafrasear o ex-presida Obama), por que é que ninguém ainda teve a acachapante ideia de trocar toda a macharada por calcinhas?

Eu não sou empreendedor nem nada, mas do alto do meu machismo, entre escolher

[ ] um monte de cuecas caros, suados e fedendo
[ ] um monte de calcinhas cheirosas, lindinhas e baratas

A segunda opção me parece muito mais em conta! Até porque, para um machista, dominar e ser superior a outros homens é bom, mas dominar e ser superior a um monte de mulheres deve ser muito melhor!

Conta pra nóis como o mundo funciona, senhor Fonte Comic Sans.

A minha resposta foi listar os seguintes dados e comentar:

“Meio segundo de pesquisa no google. Os dados da Catho são meio antigos, mas vale a ideia. A lista de dados é imensa. Nem busquei artigos acadêmicos falando sobre o assunto, mas já li alguns antes e obviamente a realidade é uma só…”

Ou seja, os dados são claros, por mais que a percepção enviesada do sujeito diga o contrário. Negar a realidade fatual parece ser tendência bastante atual. A parte mais interessante do comentário é ele não entender como pode um patrão não contratar uma “calcinha cheirosa” ao invés de um “cueca fedido” se fica mais barato. Se vivemos num país capitalista, o empregador vai sempre escolher o funcionário mais em conta, certo? Errado. No comentário seguinte ele mesmo aponta parte da resposta:

Você ainda não respondeu a pergunta, notou? Claro que não notou – cientista social lá nota alguma coisa? Se notasse, notaria automaticamente que os links apenas confirmam a pergunta!

Vamos ao jornal de grande circulação:

Para especialistas, estrutura cultural brasileira, que atribui a elas a responsabilidade por crianças e idosos, contribui para o quadro

E isso explica muito bem por que patrões não substituem a macharada por calcinhas: elas não farão rigorosamente a mesma coisa.

E o mais interessante, você teve meio segundo para pesquisar o Google, mas não teve um centésimo para dar play em um vídeo do Youtube da feminista Christina Hoff Sommers, que eu citei no outro post.

O da Agência Brasil é levemente interessante: falar que “mulheres estudam mais”, mas isso não redunda melhores salários. É uma espécie de gatilho. Mas é só pensar um pouquinho mais: nem toda especialização é útil para um empregado aleatório.

Por exemplo, para que um bando de caminhoneiros capazes de parar o país precisa ter PhD em Ciências Sociais?

Lobinho

Primeiro ele começa atacando a minha formação, afinal, Cientista Social lá nota alguma coisa? Fica claro para mim um padrão de comportamento ou pensamento. Ele tem uma postura muito defensiva em relação às mulheres e aos intelectuais, que ele associa a pensamento progressista.

Borboletinho* vem socorrer Lobinho, reforçando a mesma lógica:

O mundo funciona assim: este povo é parasita e quer conseguir coisas no grito, igual aquelas crianças birrentas no supermercado. E acaba eventualmente conseguindo o que quer de tanto estorvar.
“everything is racist, everything is sexist, everything is homophobic” claro, enquanto quando tu ganha meio milhão de dolares de tanto gritar…

morte aos marxistas!

Marxistas? Ainda existe isso? Quanta raivinha!

Voltando à questão de por qual razões as mulheres não recebem o mesmo que os homens: Lobinho reconhece e acha interessante o conteúdo de uma das fontes que eu citei para provar que sim, as mulheres recebem em média menos que os homens. Ele afirma que de fato, as mulheres não são substituídas por homens por razões culturais e práticas, sendo consideradas responsáveis pelo lar, precisam cuidar da casa, dos filhos, dos idosos, engravidam, etc. Isso contradiz a ideia original dele de que não há disparidade.

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O pensamento machista bugou o cérebro do pobre coitado. Ele fica diante de uma situação em que ele tem que concordar com o “fato” de que por uma questão social e cultural a mulher não possui as mesmas condições e capacidade de trabalho que os homens (o que confirma o pensamento dele), e por isso recebe menos, porém as razões para isso não podem ser consideradas machismo, afinal todo mundo sabe que machismo não existe.

A conclusão “óbvia” é a de que mulheres não recebem menos que os homens, apesar de receberem menos que os homens!

Lobinho insiste e indica um vídeo de uma suposta feminista que defende a inexistência de discriminação na questão salarial envolvendo gênero:

cientista político.

replica e repete o infame sofisma da disparidade salarial

Lobinho

É isso aí. “Cientista Político” sou eu. Para o autor do comentário parece ser um pecado… Ele afirma que eu repito o tal infame sofisma da disparidade salarial, e na sequência indica um vídeo que faz exatamente isso: repete uma série de sofismas e meia verdades iguais ao próximo texto de jornal que ele aponta.

É interessante notar que recentemente, no dia 8 de julho de 2020 completou um ano a lei que proíbe disparidade salarial por gênero no Estado de Nova Yorque. Por qual razão eles promulgariam uma lei que proíbe algo que não existe?

Vou comentar o vídeo junto com o texto abaixo na sequência, mas não posso deixar de mencionar a minha resposta aos últimos comentários:

“”Sofisma da disparidade salarial”…. “este povo é parasita e quer conseguir coisas no grito”…. “everything is racist, everything is sexist, everything is homophobic”…. “morte aos marxistas!” – Gente bem resolvida psicológica e emocionalmente é outra coisa :)”

O comentário final de Lobinho, que pretendo discutir junto com o vídeo, já que eles falam basicamente a mesma coisa, foi:

Eu gosto dos marxistas, eles têm umas análises bem interessantes. Pena quando eles esquecem de depurar seus próprios vieses.

Por exemplo, dizer que “a cultura força as mulheres a cuidar dos filhos, e por causa disso elas ganham menos” parece uma explicação muito convincente para a tal disparidade salarial – além de ser uma ótima maneira de fugir do assunto alegando alguma vagueza na pergunta; afinal, uma mulher cuidando do próprio filho não está fazendo rigorosamente a mesma coisa que um técnico da empresa de internet fuçando o que deu de errado no modem, né?

Mas a mesma cultura que “força mulheres a cuidar dos filhos” no conforto de suas casinhas é a mesma que força homens a passar muito mais tempo fora dessas casinhas, em profissões muito mais desgastantes, insalubres e perigosas (profissões essas que pagam bastante bem – ora mas quem diria?), expostos à violência urbana – e, de quebra, forçando-os a afastar-se dos filhos, em um caso claro de alienação parental.

E não vemos o mesmo espírito combativo para ambos os casos. O utópico fim da disparidade salarial recebe uma defesa apaixonadíssima, mas o mesmo não se diz da alienação parental e da descartabilidade masculina.

E sim, a disparidade salarial prossegue sendo um sofisma. Tanto que a minha pergunta permanece: se mulheres ganham menos para fazer rigorosamente a mesma coisa, como se explica que elas não sejam absoluta maioria dos empregados?

Aliás, tem um estudo interessante, que eu já tinha engatilhado aqui:

Sete por cento? Realmente, é um número elevadérrimo! Quase a mesma coisa que 30%, quase!

Pois é, vocês não leram errado. Ele escreveu mesmo que “afinal, uma mulher cuidando do próprio filho não está fazendo rigorosamente a mesma coisa que um técnico da empresa de internet fuçando o que deu de errado no modem, né?”

Não, definitivamente não é a mesma coisa!

Até porque, se o técnico fosse uma mulher, ela teria que chegar em casa depois de fuçar o que deu errado no modem e ainda cuidar do filho. Eu fico espantado de verdade em ver que tem gente que não compreende isso.

É justamente esse o problema. No vídeo afirma-se que não existe discriminação salarial de gênero visto que homens e mulheres que trabalham nas mesmas posições na Casa Branca recebem os mesmos salários, e no valor total da folha de pagamentos a diferença a favor dos homens é de “apenas” 12% a mais. Esse argumento é patético e desconsidera uma série de elementos fundamentais que determinam a dinâmica do mercado de trabalho.

A tese é a de que se o governo falava em 23% de diferença salarial entre homens e mulheres (o autor do comentário falou em 30%, provavelmente entendeu errado), mas os dados da Casa Branca apontam 12%, então não há discriminação. A tal feminista Christina Hoff Sommers que baseia-se nisso para afirmar que não há discriminação. Ela considera, portanto, que só haveria problema concreto se num processo de contratação o empregador olhasse para dois funcionários recém contratados e dissesse: “contratarei ambos para a mesma função, mas pagarei 2$ para o rapaz e 1$ para a moça.”

O estudo mencionado no link de jornal acima incorre no mesmo sofisma: Discriminação de gênero seria exclusivamente pagar a menos pela mesma função na mesma empresa. No Rio Grande do Sul, a “discriminação direta” seria de apenas 7%.

Ou seja: mesmo que homens e mulheres trabalhassem o mesmo número de horas, com as mesmas atribuições, ainda assim as mulheres ganhariam 7% a menos do que eles. A diferença só poderia ser explicada pela discriminação, conclui o estudo.

O globo

No caso brasileiro o tal estudo gaúcho aponta 7% de discriminação direta, porém segundo a Agência Brasil, a discrepância entre os ganhos médios de homens e mulheres sempre foi muitíssimo mais elevada. “Em 2011, homens com ensino superior ganhavam, em média, R$ 3.058, enquanto as mulheres com o mesmo nível de formação ganhavam, em média, R$ 1.865, o que representa uma diferença de salário de 63,98%.

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Em 2012, essa diferença começou a cair, passando para 61,78%. Em 2018, chegou a ser 44,7%, com homens ganhando, em média, R$ 3.752 e, mulheres, R$ 2.593. Em 2019, a diferença aumentou e passou a ser de 47,24%, com homens ganhando em média R$ 3.946 e, mulheres, R$ 2.680.”

Lobinho confunde os números por comprar o argumento de Christina Sommers. A diferença de salários nos EUA entre homens e mulheres, quando se considera o total de pagamentos em todos os setores orbitava em torno de 23% (a situação melhorou, dados mais recentes mostram 21% hoje). Ela diz que isso é mentira, já que a folha de pagamentos da casa Branca apontava uma discriminação direta de “meros” 12%.

Na média salarial total, mulheres ganharam 22% menos do que os homens em 2019, aponta o Dieese. Portanto, caro Lobinho, “Sete por cento? Realmente, é um número elevadérrimo! Quase a mesma coisa que 30%, quase! ” Pois é…. não são 30%, nem 7%. O número real no Brasil é 47,24% desfavorável para as mulheres com ensino superior, para comparar com o tipo similar ao que encontraria trabalho na Casa Branca, e 22% na média geral.

Além disso, a própria matéria d’O Globo menciona: “Diversas pesquisadoras apontam, no entanto, que enquadrar as três maiores causas do baixo salário feminino — mais afazeres domésticos, interrupção da carreira e trabalho informal — fora do escopo do sexismo é, no mínimo, ingênuo.”

Isso nos permite retomar um ponto interessante do comentário:

Mas a mesma cultura que “força mulheres a cuidar dos filhos” no conforto de suas casinhas é a mesma que força homens a passar muito mais tempo fora dessas casinhas, em profissões muito mais desgastantes, insalubres e perigosas (…)
E não vemos o mesmo espírito combativo para ambos os casos. O utópico fim da disparidade salarial recebe uma defesa apaixonadíssima, mas o mesmo não se diz da alienação parental e da descartabilidade masculina.

Lobinho

Lobinho precisa decidir se existe ou não esse tal elemento cultural influenciando a vida de homens e mulheres. Infelizmente essa conclusão de que o problema das mulheres é falso e o dos homens é verdadeiro só demonstra falta de empatia com o drama alheio. Esse tipo de postura dificulta a resolução de ambos.

O fato de que a situação da força de trabalho masculina também é precária e precisa ser endereçada e resolvida, não invalida a necessidade de responder a questão da desigualdade de gênero.

Se o suposto “lobby” para reduzir a diferença salarial feminina é mais barulhento, isso não implica em poder feminino oculto. A injustiça no tratamento da mulher chama mais atenção por que é especialmente chocante. Simples assim. Recomendo o vídeo a seguir para melhor compreensão do fenômeno da colisão empática.

Carolina Nalon fala magistralmente no vídeo acima e em muitos outros de seus conteúdos sobre comunicação não violenta e colisão empática.

Para concluir e finalmente responder o ponto que mais intrigou meu debatedor:

“E sim, a disparidade salarial prossegue sendo um sofisma. Tanto que a minha pergunta permanece: se mulheres ganham menos para fazer rigorosamente a mesma coisa, como se explica que elas não sejam absoluta maioria dos empregados?”

Lobinho

Não, a disparidade salarial não é um sofisma!

É fato que as mulheres ganham menos. O motivo pelo qual elas não ocupam a maioria dos postos de trabalho já que custam menos, deriva exatamente da razão pela qual a massa salarial feminina é mais baixa: não se trata sempre de discriminação direta, a massa salarial feminina é mais baixa que a masculina por que as mulheres em geral ocupam cargos subalternos, permanecem menos tempo na carreira por causa da maternidade e dividem mais o tempo de atividade profissional com afazeres domésticos.

Só pra constar, Mulheres ocupam apenas 7,3% dos cargos em conselhos no Brasil.

Repito em portugês claro: O problema principal não é uma situação em que um contratante diz “contratarei ambos para a mesma função, mas pagarei 2$ para o rapaz e 1$ para a moça.” O problema é que as mulheres, assim como os negros, por exemplo, não têm acesso a vagas com a mesma qualidade, ainda que tenham qualificação e formação.

Até existe a tal contratação, mencionada pelo meu interlocutor, da “calcinha cheirosa” em detrimento da “cueca fedida” em alguns casos, mas isso só significa que o contratante escolhe a estagiária “bonita e gostosa” sem nem olhar para os homens no processo seletivo. A tendência é que esse mesmo contratante promova preferencialmente homens para cargos mais elevados, por achar que eles são mais competentes. As duas situações são exemplos de plena atuação do machismo, e ajudam a explicar a diferença salarial.

Mais informações:

Catho8 frases machistas que mulheres ouvem no trabalho

MPProcuradoras de GO criam campanha para combater machismo no trabalho

IBGEPesquisa do IBGE mostra que mulher ganha menos em todas as ocupações

Veja as médias salariais de homens e mulheres nas dez carreiras com maior geração de postos de trabalho:  

  • Analista de negócios: homens ganham R$ 5.334 e mulheres, R$ 4.303
  • Analista de desenvolvimento de sistemas: homens ganham R$ 5.779 e mulheres, R$ 5.166
  • Analista de pesquisa de mercado: homens ganham R$ 4.191 e mulheres, R$ 3.624
  • Biomedicina: homens ganham R$ 2.761 e mulheres, R$ 2.505
  • Enfermagem: homens ganham R$ 3.417 e mulheres, R$ 3.288
  • Preparador físico: homens ganham R$ 1.426 e mulheres, R$ 1.326
  • Nutricionista: homens ganham R$ 2.781 e mulheres, R$ 2.714
  • Farmacêutico: homens ganham R$ 3.209 e mulheres, R$ 3.221
  • Fisioterapeuta geral: homens ganham R$ 2.400 e mulheres, R$ 2.422
  • Avaliador físico: homens ganham R$ 2.107 e mulheres, R$ 2.303

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