O Strategikon de Kekaumenos

Livro Strategikon de Kekaumenos

A sugestão de leitura de hoje é um livro que fala sobre a política e o cotidiano do Império Bizantino, que sucedeu ao Império Romano do Oriente e sobreviveu por mil anos após a queda do império Romano do Ocidente.

Kekaumenos é o nome de família do autor do manual militar e de gestão bizantino chamado Strategikon, produzido no período entre 1075 e 1078. A obra e geralmente atribuida ao Famoso general do século XI Katakalon Kekaumenos, ou a seu filho, a despeito do fato de que não há evidências históricas suficientes para sustentar tal suposição. Tampouco há evidências convincentes o suficiente para ligar o autor do texto a qualquer um dos muitos Kekaumenoi que viveram na época.

Mapa do Império Bizantino no ano 1100
O Império na época do Strategikon

Segundo João Vicente de Medeiros Publio Dias, doutorando em História Bizantina na Universidade Johannes Gutenberg de Mainz (Alemanha), o Strategikon foi certamente escrito por alguém chamado Kekaumenos, porém,  tudo que sabemos sobre ele vem do próprio texto. Sendo assim, podemos afirmar que: ele foi um aristocrata bizantino; ele exerceu uma série de comandos militares durante a segunda metade do século XI.

Seja quem for o autor, o Strategikon de Kekaumenos permanece uma obra de grande importância, sendo uma das poucas fontes bizantinas não produzida ou encomendada sob a influência direta da Igreja ou do imperador.

Além das diversas informações sobre fatos e eventos que não são mencionadas em outras fontes, o valor histórico do livro está em seu retrato não oficial das relações sociais e da mentalidade da aristocracia provincial bizantina da segunda metade do sec. XI.

O autor oferece diversos conselhos baseados em sua experiência prática e menciona diversos exemplos históricos baseados nos eventos ocorridos em sua época. O livro divide-se em seis partes. A Primeira (Capítulos 1-8) está incompleto, seu início foi perdido. Trata dos deveres e obrigações devidos a um oficial superior ou Senhor. Logo na sequência (Capítulos 9-34), está o Strategikon propriamente dito: contém conselhos e sugestões para os Generais. A terceira parte (Capítulos 35-71) trata dos assuntos domésticos e familiares. A quarta (Capítulos 72-76) aconselha a como comportar-se em caso de uma revolta contra o Imperador. A quinta (Capítulos 77-88) aborda governança e defesa do Estado, e a sexta (Capítulos 89-91), ensina aos governantes autônomos locais, que possuíam o título de Toparcas, como lidar com o Imperador.

Aparentemente a obra é uma coleção de conselhos dados por Kekaumenos para sua descendência (filhos e sobrinhos). Segundo João Vicente:

“O pedigree aristocrático da obra é expresso pelos possíveis caminhos que os endereçados poderiam tomar segundo a concepção do autor: ser cortesão em Constantinopla (o que definitivamente o autor não recomenda), coletor de impostos (também não recomendado), comandantes militares, bispos e grandes proprietários. O autor apresenta seus conselhos baseados em experiências suas e de seus antepassados.”

O tom da obra, ainda segundo João Vicente, é marcado pelo pessimismo e por uma forte subjetividade, que torna os escritos de Kekaumenos muito especiais e ao mesmo tempo dificulta a interpretação.

A suspeita com relação a estranhos que chega às raias da paranoia, seria um traço típico da elite ou mesmo da sociedade bizantina como todo? A falta de informações e de fontes disponíveis para comparação não permitem resposta definitiva a essas perguntas.

“O Strategikon é ainda assim uma fonte única, pois não somente nos dá acesso a cabeça de um bizantino comum (ainda que rico e possivelmente excêntrico) para assim vermos seus valores, seus medos e suas esperanças, mas também fornece informações importantíssimas sobre como funcionava a administração imperial no dia a dia, as pequenas relações locais de poder nas províncias e mesmo relatos independentes de outras fontes sobre eventos políticos importantes.”

Infelizmente não há versão de “O Strategikon de Kekaumenos” em português, o que não chega a ser novidade para textos bizantinos. Quase nada é traduzido, e mesmo em inglês a literatura é esparsa.

Contexto Histórico: Política Bizantina

A política bizantina era marcada neste período por intrigas e conspirações ao ponto de a palavra “bizantino” ter se tornado sinônimo de trama secreta. Falar em política bizantina significa falar em conspiração.

Romano IV Diógenes

Romano IV Diógenes
Romano IV

A ascenção ao poder por parte de Romano IV Diógenes, Imperador durante o período imediatamente anterior ao momento em que foi escrito o Strategikon, dá uma boa ideia do que significava fazer parte da política bizantina.

Romano era membro de uma família nobre da Capadócia. Teve um brilhante carreira no exército bizantino, até ter sido condenado por uma conspiração para afastar do trono os filhos do imperador Constantino X Ducas em 1067. Chamado à presença da imperatriz regente Eudóxia Macrembolitisa, ela o perdoou e casou-se com ele a 1 de janeiro de 1068.

A Imperatriz Eudóxia havia feito a Constantino no seu leito de morte, o juramento de não casar novamente, entretanto, quebrou o juramento para casar-se com o conspirador Romano, sem a aprovação de João Ducas (irmão de Constantino), do patriarca João Xifilino e nem de Miguel VII, seu filho mais velho. Romano IV coroado após o casamento, tornou-se co-imperador, junto com Miguel VII Ducas, Constâncio Ducas e Andrônico Ducas filhos de Eudóxia.

Constantino X Ducas
Constantino X

Com a ajuda do marido, Eudóxia conseguiu consolidar a sua posição no trono, mas não teve um casamento feliz. Romano nunca pretendeu deixá-la partilhar o exercício do poder com ele.

Uma das principais razões para o casamento da Imperatriz foi o fato que que ela precisava de apoio para combater a ameaça dos muçulmanos. Apesar do ter conseguido alguns sucessos iniciais na luta contra os turcos Seljúcidas, que sitiavam a fronteira oriental do Império, Romano IV comandou em 1071 a mais catastrófica derrota militar da história Bizantina: a “Batalha de Manziquert”. A fina flor da cavalaria bizantina, grande parte da nobreza foi morta ou capturada. O Império jamais conseguiu recuperar-se dessa perda, tendo assumido uma postura defensiva daí em diante, desintegrando-se gradualmente até a tomada de Constantinopla pelos Otomanos, em 1463.

Miguel VII Ducas
Miguel VII

Romano foi capturado pelo Sultão. Eudóxia e Miguel aproveitaram a situação para retomar o governo, porém, João Ducas ao descobrir que Romano estava vivo, convence a Guarda Varegue (uma espécie de guarda pretoriana bizantina, composta por soldados vikings) a forçar Eudóxia a entregar todo o poder a Miguel e a retirar-se para um convento.

Romano IV foi tratado respeitosamente pelo seu captor, mas ao retornar para Constantinopla foi atacado e derrotado por Constantino e por Andrônico Ducas, filhos do César João Ducas. Romano rendeu-se depois de prometer abdicar ao trono e recolher-se num mosteiro. Apesar da promessa de que estaria seguro, os captores brutalmente vazaram os olhos de Romano, que morreu pouco depois da infecção.

Maria Bagrationi

Maria Bagrationi
Maria Bagrationi

Filha de Pancrácio IV, um monarca georgiano, é outra personagem muito interessante desse período. Aos 5 anos, ela foi enviada a Constantinopla para ser educada na corte bizantina.

Em 1065, ela se casou (apesar de não ser grega, o que era bastante incomum) com o futuro imperador Miguel VII Ducas e tornou-se imperatriz quando Miguel ascendeu ao trono em 1071.

O governo de Miguel VII foi um grande fracasso, do ponto de vista militar, político e econômico, o que provocou uma crescente insatisfação e levou a um golpe em 1078 que derrubou o imperador.  Miguel foi tonsurado e se tornou um monge, e Maria foi trancada (sem se tornar freira) no Mosteiro de Pétrio com o filho, Constantino Ducas.

Nicéforo III Botaniates o novo imperador logo ficou viúvo, o que iniciou um grande combate de bastidores entre as mulheres solteiras de Constantinopla pelo posto vago de imperatriz. Maria abandona o convento e entra na disputa, junto com sua antiga sogra Eudóxia Macrembolitissa e a filha dela, Zoe Ducena.

Aparentemente Nicéforo preferia Eudóxia, mas Maria tinha parentes (os Ducas) bem relacionados. Além de sua beleza, sua escolha neutralizava os antigos partidários do imperador deposto Miguel VI. A Igreja Ortodoxa considerou o casamento blasfemo, visto que seu marido anterior ainda estava vivo.

Apesar de tratar Maria muito bem, Nicéforo recusou-se a nomear o filho do casamento anterior dela como herdeiro. O que de acordo com a princesa e historiadora Ana Comnena, filha do imperador Aleixo I Comneno levou a imperatriz a conspirar contra o novo marido. Com o apoio do general Aleixo Comneno, Maria forçou Nicéforo a abdicar ao trono, substituindo-o por Aleixo.  Coroado em 1081, Aleixo proclamou Constantino herdeiro do trono e, prometeu a ele sua filha Ana Comnena. Porém assim que teve um filho com a imperatriz Irene Ducena em 1087, Aleixo trai Maria e o filho dela, rompendo o noivado de Ana com Constantino retirando dele o status de herdeiro-aparente, forçando novamente Maria a se retirar para um mosteiro.

Não importa o posto ocupado, permanecer vivo e dentro do jogo político bizantino era um verdadeiro desafio.

O excelente blog de João Vicente traz links para o projeto onde o livro vem sendo traduzido e há versões para o inglês (aqui), para o espanhol por Juan Signes Cordoñer (aqui) e para o italiano por Maria Dora Spadaro (aqui).

Para saber mais:

“Byzantine Siege Warfare in Theory and Practice”

The Grand Strategy of the Byzantine Empire

Charlotte Roueché, The place of Kekaumenos in the admonitory tradition. Em inglês, Roueché contextualiza o Strategikon na tradição admoestatória bizantina.

 Artigo de João Vicente: O guerreiro de fronteira bizantino Akrites segundo o Strategikon de Cecaumenos (séc. XI) sobre a representação das fronteiras no Strategikon de Kekaumenos.

Blog Bizantiística – Mais do que recomendado, apesar das postagens muito esporádicas.

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