Como tirar proveito de seus inimigos – Plutarco

Como tirar proveito de seus inimigos - Plutarco

por Rodrigo Alves Correia – Doutor em Ciência Política

O título dá a impressão de que o livro é apenas mais um manual de táticas e manobras políticas, mas Plutarco está longe de ser um autor que abandona a moralidade. Toda a tônica de sua obra é permeada por uma visão profundamente moral do mundo antigo e da política. Por mais contraditório que possa parecer, a defesa que Plutarco faz da conduta política tem a ver com a prevalência da moralidade e das atitudes corretas.

O livro é dividido em duas partes: a primeira trata dos inimigos, e a segunda dos aduladores. A parte dos aduladores é bem maior e bem mais complexa, mas os inimigos são bem mais interessantes.

Os inimigos, nos obrigam a permanecer na trilha correta, na medida em que estão sempre à espreita tentando nos destruir na primeira falha. Esta vigilância impede que sejamos moralmente frouxos. Este é o proveito a ser retirado dos inimigos. Eles nos ajudam involuntariamente, impedindo que sejamos descuidados. O melhor castigo para os inimigos é o fato de que nos tornamos melhores e mais difíceis de ser derrubados justamente por causa deles.

Ainda em relação aos inimigos, segundo Plutarco os inimigos são mais úteis que os amigos para a nossa busca do auto aperfeiçoamento, na medida em que eles não têm medo de ferir nossos sentimentos e o ponto de vista deles não está embaçado pela amizade. As críticas e ataques de nossos inimigos tendem a ser um retrato muito mais fiel dos nossos defeitos.

Plutarco recomenda tratar com generosidade os inimigos para evitar rancor e a inveja diante de seu sucesso. Porém nada é pior que a inveja dos amigos, portanto é preciso escapar dela também.

A linguagem usada no livro é meio arcaica, mas como ele é curtinho e muito bom, vale a leitura!

O autor

Plutarco (Lucius Mestrius Plutarchus), filósofo e biógrafo grego, nascido em 46 e falecido na cidade de Queroneia, por volta do ano 120. Estudou matemática e filosofia na Academia de Atenas (fundada por Platão). Lecionou filosofia durante o reinado de Domiciano, após adquirir a cidadania romana, ganhando prestígio na corte do imperador Trajano, tendo sido preceptor de seu sucessor, o futuro imperador romano Adriano.

Plutarco deixou uma obra variada. Além de “Como tirar proveito de seus inimigos”, são cerca de 230 livros, abordando desde a obra de Platão, retórica e religião, passando por comparações entre a inteligência dos animais e dos homens. Uma de suas obras mais conhecidas é “Vidas Paralelas”, uma coletânea de 64 biografias importantes personalidades greco-romanas, comparadas aos pares.

Ele teve influência do estoicismo, cuja influência moral é clara em seus tratados de conduta moral.



Trechos:

É próprio de um homem ponderado tirar proveito de seus inimigos (Xenofonte) (p.4)

O fogo queima quem o toca; mas fornece luz e calor, serve a uma infinidade de usos para aqueles que sabem utilizá-lo. Examina igualmente teu inimigo: esta criatura, de um outro lado, nociva e intratável, não dá, de alguma maneira, ensejo de ser apanhada? Não pode prestar-se a algum uso particular? Não é útil? (p. 5) 

Assim, os imbecis maltratam suas amizades, enquanto os homens sensatos sabem dirigir para seu proveito mesmo as inimizades. (p.6) 

Em primeiro lugar, parece-me que o mais prejudicial na inimizade pode tornar-se o mais proveitoso, se se quer atentar nisso. E de que maneira? É que teu inimigo, continuamente atento, espia tuas ações; na expectativa da menor falha, fica à espreita, em torno da tua vida… (p.6)

Como me defenderei de meu inimigo? Tornando-te, tu próprio, virtuoso (Diógenes)(p.9).

De fato, em muitos pontos a clarividência do inimigo é maior que a do amigo – “o amor é cego a respeito do que ele ama”, como diz Platão… (p.15)

Sem dúvida não se vingar de um inimigo, quando a ocasião se apresenta, é humanidade! Mas compadecer-se dele quando está prostrado e assisti-lo [ajudá-lo] quando está na miséria, ter atenções para com seus filhos e ocupar-se de seus interesses que periclitam, o homem que não sente a generosidade de uma tal conduta, que não louva essa virtude, esse, “de aço ou de ferro é forjado o seu coração negro”. (p.18)

Mas o que há de mais belo e de mais útil é que, tomando o hábito de louvar nossos inimigos, de nos defender de todo o rancor e de toda tortura à vista de seu sucesso, nos afastamos mais dessa inveja que excitam em nós com muita frequência a felicidade de nossos amigos e o sucesso de nossos familiares. Ora, que outro exercício é mais útil para a alma, e melhor a dispõe, que aquele que extingue em nós todo o instinto de rivalidade e inveja? (p. 19) 

(…) do mesmo modo a inimizade, pela única razão de introduzir em nós, juntamente com o ódio, um sentimento de inveja, deixa em depósito na sua passagem a desconfiança e o regozijo que vêm do infortúnio dos outros, o rancor enfim. Além disso, quando a maldade,  a astúcia, o gosto da intriga, que não parecem ser coisas condenáveis ou iníquas com respeito a um inimigo, se insinuam em nossa alma, aí permanecem, sem que possamos nos desfazer deles; e o hábito  faz que, não sabendo nos preservar de tas defeitos com respeito a nossos inimigos, os empreguemos mesmo contra nossos amigos. (p.19-20).

(…) é certamente bem mais honroso ainda, nas discussões e nas rivalidades que instigam os homens, ser um inimigo generoso, justo e leal, reprimir seus maus impulsos, baixos e perversos, depreciá-los, a fim de ficar inabalável nas relações com os amigos, e abster-se de todo prejuízo contra eles. (p.20)

Fontes: JDfilosofia, Diário do Centro do Mundo

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